9 de dezembro de 2015

Carta à minha Médica (Não, não é ao Pai Natal)

Exma. Senhora Doutora

Desculpe lá mas vou tratá-la por TU, ok? Afinal conheces todas as minhas cicatrizes, buracos (salvo seja), doenças e padecimentos, tornando-me há muito, um livro aberto, ou não tivesse eu a minha ficha clínica em dia…

Mas hoje não vou falar de mim, nem pensar, hoje vou falar da Sra. Dra., que, ao que sei e me foi devidamente comunicado (lá estou eu a tratá-la por Você…), fez no passado domingo dia 6 o seu último serviço SASU (Urgência como eu costumo dizer, ou ‘horas extras’ como gosta o seu patrão de chamar), como funcionária pública.

Sei que no final do turno, não teve uma garrafa de Porto que tanto aprecia, uns biscoitos e abraços dos seus colegas, o que não me admira pois é tal e qual a sua maneira de estar… simples e sem dar nas vistas. É óbvio que se a minha amiga fosse de políticas (encostada ou filiada) não lhe faltariam palavras de apreço e pancadinhas nas costas, 'gestos' que sempre evitou. 

Mas, eu como seu doente, quero deixar aqui o meu bem-haja por todas as horas que dispensou durante estes anos todos, àqueles que em momentos menos bons lhe pediram ajuda e solicitaram o melhor procedimento. 

Imagem Google


Como muita coisa na vida, nem tudo é (foi) perfeito, e tenho a certeza que soube ‘perdoar’ aos bêbados (que felicidade naquelas cabeças), aos que apareciam a dizer que estavam muito doentes (só com o propósito de ficarem com o papel que justificaria a falta no trabalho), aos que se sentiam muito constipados, com dores de ouvidos e afinal com mais saúde que a minha amiga (que algumas vezes trabalhou doente), já para não falar das coisas menos light… as tripas de fora, os dedos cortados à dentada, as ameaças de morte por não ‘dar baixa’, os pedidos ‘não diga nada aos meus Pais que estou grávida’, as vítimas das 'curiosas’ (que fugiam com o rabo à seringa quando o serviço corria mal), e, mais recentemente devido à crise, o aparecimento daqueles que nunca usaram o sistema de saúde (muito 'informados' e críticos... «eu desconto e pago-vos o ordenado, quero ser atendido!»), e que a partir de certa altura, deixaram de usar  as clínicas e privados onde sempre foram. Fiquemos por aqui.

Gostaria de ter estado à saída para lhe dar um abraço apertado, mas ainda bem que o marido da minha amiga (e disse eu que a ia tratar por TU), estava à sua espera para ir beber um copo. Ele é um tipo com sorte (e porreiro).


E para acabar esta carta…
Doutora:
No SASU a sua actividade e empenhamento acabaram (por vontade própria), mas sei que a sua carreira profissional vai continuar por mais uns tempos (anos?), na Unidade de Saúde que coordena.
Se me permites, vê lá se te despachas com a reforma…. Eu ainda quero ver, tu a escreveres as tuas memórias e falar daquilo que, para já, não deves falar (podes mas não deves, como se diz na tropa) e mais importante ainda, EU  não quero dar a volta a Portugal sozinho(!), mesmo sabendo que nós os dois ao volante/viagem somos uma tragédia em questões de orientação.


Beijos… daqueles.

 Bad case of loving you (Doctor Doctor)
Robert Palmer

Doctor, doctor, give me the news
I've got a bad case of lovin' you
No pill's gonna cure my ill
I've got a bad case of lovin' you

11 comentários:

  1. Ai que fofo! A relação entre médico e doente nem sempre é estreita mas em alguns casos, o medico torna-se quase membro da família e é assim que deve ser. Afinal, eles tratam de nós, dão raspanetes quando é preciso mas é tudo para o nosso bem.
    Beijos e abraços

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  2. Quer dizer que a esposa ficou com mais um pouquinho de tempo livre: Isto de ser casado com o nosso médico não é lá grande regalia. Eles/elas estão sempre de antena ligada.
    Um abraço e felicidade para os dois.

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  3. Essa volta a Portugal pode mesmo começar por Parada de Gonta amigo Alberto.Gr. abraço

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  4. Amigo, peço desculpa por ter ido ao meu blog e ter ficado triste, mas eu ando tão triste...ando a faz o máximo que posso que me parece insuficiente, mas acho que não ando a agir bem e isso dói-me imenso...
    Mas adorei a sua carta, fora eu a sua médica e ficaria muito, muito feliz. E ainda bem que há médicos assim, que nos cuidam bem...Beijinho

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  5. Olá, Alberto!

    Bonita homenagem, em forma de CATA ABERTA, dirigida à sua Sr. Dra.!
    Quando alguém dá o seu máximo no desempenho de uma função, e eu considero a medicina, o ato médico, como o mais importante de todos, pke tem a ver com vidas e a vida é um bem precioso, que devemos tratar e cuidar com muito carinho e interesse, é no mínimo revoltante que não haja um abraço, um beijo, uma palavra amiga, uma flor, sei lá, no final de um tempo de desempenho que chegou ao fim.

    Viver ou morrer é o binómio com que médicos/as lidam todos os dias, para além das confidências, dos descontroles emocionais, das raivas incontidas, das deselegâncias e da falta de autoestima de muita gente, mas há k continuar.
    Logicamente que os médicos e médicas tb são gente, portanto têm doenças, dias melhores, dias piores e têm problemas como toda a gente tem, mas no serviço não podem, não devem mostrar essa faceta. Estão ali para ouvir, ajudar e tratar.

    É bom continuar a ser útil aos outros, a dar-se!

    A sua médica, a sua Dra. teve o melhor beijo, o melhor abraço e o melhor encontro, de sempre, qdo o Alberto, k, por acaso é marido dela, a esperou à saída.

    Beijos e abraços para ambos, mas para a Sra. Dra. um beijo muito especial, afetuoso e de reconhecimento, pke MERECE!

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  6. Lindo de morrer !

    Como sabe, não sou de muitas palavras, mas desejo a si e à sua Drª um futuro muito feliz !

    Abraço aos dois :)

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  7. Alberto, meu estimando amigo!

    Como vai, como vão?

    Estive a reler o meu comentário acima e tenho de retificar um erro de digitação. Que tristeza! Ando a "comer" letras das palavras! Então, trata-se de CARTA e não cata ABERTA! As minhas desculpas!

    Beijos para ambos.

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  8. Uma declaração emotiva e merecida.

    És um perito em homenagem e duma sensibilidade extraordinária.

    Beijinhos e cuida-te bem.

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